Entrelivros: Pensando na idéia de que o bom livro é aquele que carrega em si a tradição e dá um passo adiante, a literatura não seria uma construção coletiva, de todos os escritores em conjunto?
Piglia: Sim, faz sentido. O escritor escreve porque antes se escreveu e ele aspira incluir, nessa rede, uma percepção ausente, um pequeno rastro de alguma coisa que não estava ali. Todos os livros são uma tentativa de marcar alguma coisa na língua, algo que seu autor tem a fantasia de que não existia antes. Evidentemente, se fosse possível ter acesso a toda informação, sempre se descobririam esses rastros em algum lugar oculto do universo da cultura. E, no entanto, essa aspiração de dizer algo diferente é fundamental para a riqueza da literatura. A tradição, nesse sentido, pode ser entendida como algo que ajuda a escrever, a referência do que já se fez que permite dimensionar o que se pode vir a fazer. A tradição é como um rio em que se nada, que irremediavelmente acompanha toda nova narrativa.
(Trecho da entrevista de Ricardo Piglia que está na revista Entrelivros deste mês)
Por falar em tradição, os Cadernos de Literatura Brasileira (Instituto Moreira Salles), em sua edição comemorativa de 10 anos, dedica as suas páginas a Guimarães Rosa. O autor de Grande Sertão também se arriscou pelas veredas da poesia, embora ele não estivesse “muito de acordo” com ela, segundo suas próprias palavras:
“O Magma, aqui dentro, reagiu, tomou vida própria, individualizou-se, libertou-se do meu desamor e se fez criatura autônoma, com quem talvez eu já não esteja muito de acordo, mas a quem a vossa consagração me força a respeitar.”
O livro Magma, apesar de ter sido premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1936, permaneceu inédito por décadas, levando uma vida quase clandestina e conhecido por alguns poucos privilegiados. Somente em 1997 (30 anos após a morte de Guimarães Rosa) a editora Nova Fronteira publicou os poemas. Um deles segue abaixo:
Consciência Cósmica
Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...
Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem de deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...
Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
E deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que pouparam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...