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OS MUGIDOS DA VACA
Nesta quinta e sexta-feira a VACAMARELA vai soltar alguns mugidos por São Paulo.
Explico:

Na quinta (13/09), a VACAMARELA participa do projeto Cartografia Literária. Eu já havia comentado aqui sobre este projeto, mas não custa nada reforçar: a Cartografia Literária foi idealizada pelo SESC Consolação e tem como objetivo principal o mapeamento das diversas expressões e experimentações literárias que acontecem na cidade de São Paulo e Grande São Paulo. O projeto já está na 3ª edição e desta vez a mediação do encontro será feita pelo escritor Marcelino Freire e saravá.
SESC Consolação
Rua Dr. Vila Nova, 245
A partir das 19h30
Na sexta (14/09), a VACAMARELA comparece para mais um sarau lá na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. Para quem ainda não sabe, a Alceu Amoroso Lima é uma biblioteca temática especializada em poesia.
Biblioteca Alceu Amoroso Lima
Rua Henrique Schaumann, 777
A partir das 19h00
Os convites estão feitos. Compareça.
Escrito por Victor Del Franco às 19h32
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DA NATUREZA DA VACA XV
ADÃO E EVA
ente o suave
e o urbano
entre o sacro
e o profano
entre o sábio
e o insano
na fronteira
entre mitos
e civilizações
a serpente atrevida
então con
vida:
– em meu ventre,
entre!
LÃ
des
fio
o
fio
da
fi
na
malha
no
fio
da
na
valha
des
a
fio
Victor Del Franco
Poemas do livro O elemento subterrâneO (Demônio Negro, 2007)
Escrito por Victor Del Franco às 19h31
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DA NATUREZA DA VACA XIV
QUASE POLACO LEMINSKI
um recado quase claro; um sorriso quase sarro;
um chorinho quase samba; um malandro quase sábio.
uma brasa ainda quente na certeza quase quase.
um carinho quase caro; uma mancha quase esparsa;
um caminho quase sério; uma vida quase glória.
haverá espaço quase pra qualquer haicai no bolso?
BANQUETE
Quereríamos um mesmo
e contínuo alimento (o
fim da ineficiente fome?)
se nos fosse obrigatório
desejar somente utilidades
para o lar.
A mesa arrumada, as velas
pingando um líquido
viscoso – um algo entre
leite e mel mas sem o
gosto da primeira infância,
só a infâmia sem forma
da cera.
E poderíamos, num embate
amistoso, esquecer nossos
gestos humanos e não
pesaria mais as mãos em
seu quadril nem os tapas
em minha cara. A chama
das velas e as ondas
sonoras fluindo no espaço
não ocupado por pratos,
copos ou flores.
Nossa última conversa
, contínua e mesma,
quereríamos casta. O
perfume gasto, a língua
morta e todos os pesares
contra a forte vontade (única
esperança nossa: os amantes)
de nunca parar de ruminar.
Renan Nuernberger
Outros poemas do Renan Nuernberger estão aqui.
Escrito por Victor Del Franco às 22h03
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DA NATUREZA DA VACA XIII
QUERIDA
você tem razão,
isso aqui acaba sendo
um exercício escolástico,
às vezes a gente até sabe
que está errado,
mas ainda assim
vamos discutindo
pelo gosto
de discutir.
_______________
Com o perdão da palavra,
fiz um poema há muito.
Como sinto que
não vou me livrar dele
até expô-lo ao público,
paro-o, do verbo parir, aqui.
O silêncio já será resposta suficiente,
e muito.
Paulo Moura
Escrito por Victor Del Franco às 22h27
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DA NATUREZA DA VACA XII
Ladrilhos
Que andasse
a procurar objetos de louça
e os levasse
no bolso do casaco
polidos
era coisa sabida
E que no opaco
armário de cozinha
depositasse
essas preciosidades
não
podia evitar.
seus objetos de louça
seu cuidar que luzia com
o brilho seu
seus achados de cerâmica
sem importar
o formato
Que recolhesse
e juntasse
as partes de modo imperfeito
era o que fazia:
o fragmento de louça.
Água-viva
O homem encharcado
atravessa a rua e entra
rápido pelo portão de casa:
precisa dar um telefonema.
Chove muito
como chovia há quase um ano,
mas era maio, ele disse.
Se pudesse, falaria que
naquele verão
tarde de fevereiro
já não molhava mais.
Mas disse
hoje não use guarda-chuva
e venha para casa
porque já te espero.
Chove muito
e sorri líquido o homem,
água-viva.
Lilian Aquino
Escrito por Victor Del Franco às 18h20
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DA NATUREZA DA VACA XI
THANK GOD IT´S WEDNESDAY
Adoro quartas-feiras (Aninha, e agora, o plural tá certo?), anseio por esse dia.
Quarta é dia de despir-me de todo o preconceito, de todas as máscaras, de todas as inibições, de toda falsidade, de toda postura e compstura.
Quarta é dia de libertar-me dos demônios, de espantar os fantasmas, de matar minhas assombrações e encontrar paz.
Quarta feira, o dia do meio da semana, é o dia de buscar o equilíbrio, de desabafar e ficar mais leve, de escutar. De lágrimas. De falar descontroladamente. E falar palavrão.
Quarta é sempre dia de me encontrar e me perder em mim mesma, nas minhas alucinações e divagações. Quarta é dia de contar o final de um filme muito bom...
Quarta é também dia de silêncio, aquele silêncio que incomoda porque a gente sabe que tem algo a ser revelado, mas não tem coragem nem vontade de enxergar. É também, às vezes, o dia em quem a gente se permite entrar em contato com aquilo que incomoda e dói.
Quarta à noite é minha hora, só comigo, de frente no espelho, cutucando feridas, resgatando memórias, superando traumas. Eu de frente comigo mesma. Me enfrentando, me confrontando, me consolando e me cuidando. Eu me destruindo e me re-construindo aos pouquinhos.
Quarta é dia de... terapia.
Julia Lima
Outros textos da Julia Lima estão aqui ou aqui.
Escrito por Victor Del Franco às 16h30
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DA NATUREZA DA VACA X
largo treze de maio
leva dois por um real leva dvd barato cuato meu é o real gelada coca gelada gelada brahma gelada amendoim do he-man come um faz nenem vem o carro do pão doce tem pão de creme de côco tem pão de creme de milho atestado de saúde é dez o atestado meu exame de vista oculista médico dentista atestado de saúde vai atestado na hora eu compro ouro dólar euro bom dia senhor bom dia freguês posso falar um minuto? tá com tanta pressa assim? quero tanto te ajudar cheguei muito afim de tudo só quero aqui fazer desconto só quero aqui vender a banca olha o cafezim com leite amendoim do japonês é caldo de cana do bacana chegue mais gato vamo namorá? Amá rolá brincá de fazê filho dez: garanto a diversão. tapioca toda doce o carro do pão doce vai passar é o queijo das minas do mineiro vai saúde vai plano de saúde ultrassom faço na hora senhora amai-vos sempre uns aos outros contribua sempre teu reino
- é rapa pau polícia prefeitura sem papo fim da sinfonia popular
soco
se um soco vale muito mais que mil palavras um soco de palavras é banana um big power fast murro um argumento cortante uma ironia convincente uma verdade dita uma piscadela de olhos um dedo na cara é banana
o homem primata vence outra vez
Ivan Antunes
Outros poemas do Ivan Antunes estão aqui.
Escrito por Victor Del Franco às 20h43
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DA NATUREZA DA VACA IX
DEMÔNIO DA TAZMÂNIA
da camisa esburacada da garota relapsa o demônio da tazmânia graceja com dentes arraigados para a tira de jornal de um careca suado
a manchete eriçava: “BCs injetam mais US$ 72 Bi E os mercados têm trégua”
distraída, a garota rói as unhas olha fixamente um muro pichado
por trás da pichação há tinta, sobre tinta, sobre tinta, sobre tinta, sobre cimento endurecido, há muito secado
RUAS
alinhavadas de forma paralela (cuidadosamente mesuradas) impenetráveis de piche sedimentado abarcando impolutas estruturas: vulvas, lábios, curvas em brutais inflexões, envoltas por couro, velcro e veludo, (Ah! O invólucro de glitter...) sublevam fractais de feições: belezas a esmo
- Aqui a infinitude (como telas pechinchadas) subjaz
Gustavo Assano
Outros poemas do Gustavo Assano estão aqui.
Escrito por Victor Del Franco às 19h36
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DA NATUREZA DA VACA VIII
Hoje os astrônomos decidiram que Plutão não é mais um planeta.
Dizem que Plutão é muito menor que a Terra e até mesmo
[menor que a lua.
Bobagem.
Muitas vezes já me disse que o mês é bem maior que o meu salário,
mas não deixei de constelar contas e cadastros
e nem por isso os astros deixaram de ser astros.
O CACTO
São mesquinhos os cactos. Aptos ante o inóspito, optam o fluxo (não ínfimo) reter no oco. Aptos, mas míseros são os cactos – com espinho abstêm-se os céticos.
Cético: ser como o cacto: signo ereto de acúleos. Ressentir do silêncio das folhas, conformar-se à demência dos galhos. Ser convicto sem fruto.
Fábio Aristimunho
Outros poemas do Fábio Aristimunho estão aqui.
Escrito por Victor Del Franco às 17h28
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DA NATUREZA DA VACA VII
cai catarata
cai catarata
véu branco
despenca
em água abismal
penumbra
rebenta
rocha colossal
sedenta
desde tempo abissal
eflúvio
dos rios temporal
cauda de foz
perene canal
resumo de preces
catedral
Goela abaixo
Este meu corpo é provisório:
carne e ossos e líquidos
e órgãos e braços e mãos e pés.
Tudo mal disposto e organizado,
como numa fábrica.
Já fenece transcendendo
do nada
até o mais tardar que não sei quando virá.
Este meu corpo é enjoado.
Pensa que as poucas e boas
por que passou
é matéria de drama virulento.
Talvez faça alarido à toa
e em verdade não sabe
o que é uma apunhalada seca.
Este meu corpo
cambeia em círculos quadrados e obtusos.
Anda em descompasso com relógios
E me pergunta a cada minuto
“QUANTO AINDA VAI DEMORAR?”
Elisa Andrade Buzzo
Outros poemas da Elisa Andrade Buzzo estão aqui.
Escrito por Victor Del Franco às 14h50
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DA NATUREZA DA VACA VI
Idéia de família
Não herdei de meu pai,
as neuroses de família.
Mas via na colher de pau,
à espera do vinho
que toda noite ele bebia,
o pouco que serei.
Era mais que uma colher,
sua primeira função foi ser
palmatória para meu avô.
Meu pai achava
que assim beberia
um pouco de suas mãos.
Para mim a colher voltara,
como castigo.
Quando meu pai morreu,
agarrado à colher de pau,
não deixou o seu sangue.
Já fora tarde,
e tudo aquilo tornara-se
vinagre.
Iemanjá
para Andréa Catrópa
Virá
de fora
e
rasgará, a nado
o músculo
da água.
Transbordará (reino de Oxum)
cachoeira
num (como sobra)
lago da memória.
Até que líquida
ser bebida,
e incorporada.
Quando se for (para dentro),
água-fátuo,
deixar-se-á, um pouco,
à matéria
que
engolirá, a seco,
o gole
do
santo.
Eduardo Lacerda
O Eduardo Lacerda é editor
do Jornal de Literatura Contemporânea – O Casulo.
Se você quiser conhecer o blog do jornal
é só clicar aqui.
Escrito por Victor Del Franco às 20h26
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