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Fóton: Literatura e Outras Partículas
 


PESSOA INEXISTENTE

 

 

 

E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!

(O último sortilégio – Fernando Pessoa)

 

 

 

EU NÃO SEI SE FERNANDO PESSOA REALMENTE EXISTIU

(Poema de Emmanuel Hocquard)

 

 

Eu não sei se Fernando Pessoa realmente existiu
(admitindo que saibamos o que existir quer dizer)
mas eu acho que ele existe à medida
que cada um de nós acha que ele existe.
E que neste sentido ele é único.
Não no sentido em que cada um de nós é único
– ou pensa ser –
mas no sentido em que Fernando Pessoa é único
isto é, como um gerânio
no meio de outros gerânios,
isto é, como todo mundo.

O que o torna tão diferente de muitos dos outros poetas
é a sua indiferença a todas as coisas,
dentre elas, à poesia e à indiferença.
Sua indiferença não é uma pose, nem uma atitude.
Ela é a expressão de uma inteligência viva.
Para Fernando Pessoa, ser inteligente é duvidar de todas as coisas,
dentre elas, da inteligência e da dúvida,
é tentar se desfazer daquilo que aprendemos.
Fernando Pessoa manejava sua inteligência
como o contrabandista de Valery Larbaud que usa
seu pequeno espelho de bolso
para assegurar que os funcionários da alfândega não estão na sua cola.
Eu acho que ele tinha um olhar de mosca.
E que seus olhos de mosca lhe permitiam ver tudo
ao mesmo tempo, uma coisa e seu contrário,
mais alguma coisa que não é exatamente seu contrário
e que é, no fim das contas, a mesma coisa.

Admitindo que Fernando Pessoa tenha algum dia existido
(e que tenhamos chegado a um acordo sobre o que existir quer dizer)
eu acho que ele era do tipo que podemos chamar solitário,
e que ser solitário como eu imagino que ele tenha sido
é estar presente ao mesmo tempo em todos os lugares e em lugar nenhum
é ser ao mesmo tempo todo mundo e ninguém.
Ser Fernando Pessoa é ser tudo, para ele somente.
E alguma coisa que se relaciona com o sono.

T.S. Eliot precisava de Deus para amar
e para escrever o que ele escreveu.
A metafísica dava náuseas em Fernando Pessoa
porque a metafísica supõe uma dualidade
que lhe revolvia o estômago.
Esta náusea da alma (que ele mantinha
ao escrever o que ele escrevia)
lhe fez escrever o que ele escreveu
até não poder mais pensar, até este esgotamento
que se relaciona com o sono.

A voraz banalidade das coisas cotidianas
é seu ponto de partida e seu ponto de chegada.
Ele não pega uma coisa qualquer da realidade de todos os dias
para destacá-la e lhe dar um sentido
mais alto, nem outro sentido qualquer que esteja fora dela mesma.
Ele pega uma coisa banal que ele expõe por um momento
à luz enganosa da metafísica
para recolocá-la, inalterada – ou quase –
na banalidade voraz das coisas cotidianas.

Seigen Ishin afirmava que antes de estudar o Zen
sob a orientação de um bom mestre
as montanhas são montanhas e as águas são águas.
Que, chegando a uma certa visão interior da verdade,
as montanhas não são mais montanhas
e as águas não são mais águas.
Mas que uma vez atingido o estado de quietude,
de novo as montanhas são montanhas
e as águas são águas.
Eu não compreendo muito bem o que isso quer dizer,
mas eu acho que Fernando Pessoa teria ficado contente
de entender.

Sem sombra de dúvida, é em torno dessa questão,
ou de alguma coisa próxima a isso, que giram sua lucidez
e sua retórica de gerânio.


                    (tradução inédita de Marília Garcia)

 

 

Poema retirado do blog

da revista literária Modo de Usar & Co.



Escrito por Victor Del Franco às 21h05
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CONTEMPORÂNEOS

 

 

 

A literatura contemporânea, em particular a poesia, será tema de mais uma série de encontros sobre as vozes poéticas mais recentes nas letras brasileiras. Anote na agenda e compareça.

 

 

Introdução à leitura de poemas contemporâneos é um curso que irá fornecer aos participantes ferramentas teóricas para sua reflexão acerca da poesia contemporânea brasileira e também promover a leitura dessa produção. Em um primeiro momento, faremos um breve panorama dos principais eventos da poesia moderna nacional e um detalhamento de algumas características do cenário literário, desde a década de 70 até a atualidade. Em um segundo momento, iremos nos dedicar ao exame de algumas características que se manifestam nas obras de diferentes poetas contemporâneos na tentativa de identificar os diversos recursos temáticos e estilísticos que a poesia mais recente tem privilegiado. Essas aproximações visam tornar mais acessível, rico e prazeroso o contato dos leitores com a produção poética contemporânea.

 

Idealizadora do Curso

Andréa Catrópa é poeta, mestre em Teoria Literária FFLCH/USP e co-editora do jornal de literatura contemporânea O Casulo. Integra a coletânea 8 Femmes e seu primeiro livro de poemas será em breve publicado pela Coleção Caixa Preta (Lumme Editor).

 

Quando?

O curso tem início no dia 08 de março, será gratuito, aberto ao público em geral e a inscrição poderá ser feita mesmo após as primeiras aulas.

 

Onde?

Biblioteca Alceu Amoroso Lima

Rua Henrique Schaumann, 777 - Pinheiros



Escrito por Victor Del Franco às 17h57
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MACHADO NA CABEÇA IV

 

 

 

O DESFECHO

 

Prometeu sacudiu os braços manietados
E súplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.

 

Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilhão,
Uns cingidos de luz, outros ensangüentados...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a águia em cima os olhos espantados.

 

Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.

 

Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.



Escrito por Victor Del Franco às 18h49
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